A agenda secreta por trás do ecossistema de startups
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A agenda secreta por trás do ecossistema de startups

De tempos em tempos temos de recorrer aos clássicos para entender o que está acontecendo hoje. A história é gentil ao nos lembrar dos nossos erros do passado para que tenhamos aprendizados, e cruelmente fria em nos lembrar que por vezes apenas seguimos errando. Mas a história já passou, e isso quer dizer que o aprendizado esta lá de qualquer forma, só precisamos procurar.

Esta semana me lembrei de um filósofo e economista escocês do século 18, considerado por muitos o pai da economia moderna, Adam Smith.

Adam Smith é uma referência até hoje, estudado pelas escolas de negócio do mundo todo, e isso ocorre porque ele percebeu o mais óbvio: a ganância humana. Da mesma forma ele também percebeu o quanto isso poderia fazer a sociedade crescer. Veja essa citação:

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter."

E isso me fez refletir sobre o funcionamento do nosso mercado, o quanto a liberdade econômica é tão boa, e o quanto isso afeta o ecossistema de startups. E dessas reflexões surgiu o que considero “a agenda secreta por detrás do ecossistema de startups".

desespero das startups

A agenda secreta por trás do ecossistema de startups

Basicamente temos um funil, onde entram muitos e saem bem poucos, um punhado na verdade. O mercado estimula a criação de startups através de eventos, programas de aceleração, associações e todo tipo de iniciativas dentro do ecossistema, mas a maioria dos empreendedores nem sequer pensa como funciona a economia ou as relações comerciais.

O mesmo ocorre com a maioria dos investidores que tive a chance de conversar. São muito conservadores, e muitos recorrem a conceitos como VPL e TMA para tentar imaginar se vale ou não entrar como investidor. Em geral não falam em terminologia financeira, mas deixam claro que estão tentando ver o custo de oportunidade, que é uma variável importante para a tomada de decisão. Dinheiro é caro, e a maioria deles construiu seus patrimônios comendo o pão que o diabo amassou, com o custo Brasil sempre envolvido, demorando anos para conquistar algo que na teoria algumas startups podem conseguir em poucos anos.

briga do investimento

E ainda existem as grandes corporações, que passaram a também investir em programas de aceleração próprios como é o caso da Abril ou o Cubo do Itaú. Quem acredita que uma iniciativa de um banco no Brasil é sem fins lucrativos está muito enganado. Isso é investimento de longo prazo, e se foi feito via fundação ainda obteve algum tipo de beneficio tributário. Essas empresas, acredito, estão vendo o potencial de inovação que as startups trazem, mas também o potencial de ameaça.

Pensem no Skype. Existiu um momento em que as companhias brasileiras de telefonia o bloquearam sistematicamente. Lembro até de ter lido do founder do Skype que ele não acreditava que as companhias estavam fazendo isso: seria um golpe contra a inovação e a modernização dessa indústria. Pois bem, no final, ficou claro que sim, elas bloqueavam. Então, porque não investir nas startups antes que elas tentem nos comer silenciosamente? Essa bem pode ser a mentalidade corporativa, e talvez mais provável do que “fomento ao empreendedorismo, inovação e desenvolvimento de jovens talentos”.

E finalmente, os grupos de interesse que no Brasil são baseados em modelos antigos, “coronelistas" e que lutam para se manter. Veja o caso do Uber no Brasil. Desde sua entrada há poucos meses criou-se muito tumulto. Os taxistas lutam contra porque alegam que eles não tem autorização para trafegar como veículos prestadores de serviço, e o Uber diz que esse modelo está ultrapassado. Eu digo, “quem tomar partido apenas está sendo levado pelo calor da discussão sem ver o contexto”. É obvio que o nosso modelo é antiquado, mas ele foi construído em cima de um monte de regras, burocracias e controles estatais sobre os profissionais de táxi. Para se conseguir uma licença são necessários anos de espera enquanto o governo local decide se deve ou não liberar novas licenças. Se para prestar esse serviço o governo cobra um monte do profissional de táxi porque não faria o mesmo pro Uber? Que atire a primeira pedra quem nunca defendeu o seu lado! E digo mais, se isso ocorrer de forma igual, o Uber pode se tornar inviável no Brasil.

fadiga das startups

Com tudo isso, eu comecei a ver uma sombra, uma sombra atrás de um discurso de inovação e empreendedorismo. Qual é o real interesse do mercado? Estimular o empreendedor, não porque isso é bonito, mas porque isso ajudaria toda a sociedade a evoluir, assim como Adam Smith preconizou no século 18? Ou é apenas uma forma de marcar território, controlar a inovação, comprá-la enquanto ainda estiver barata e até mesmo bloquear eventualmente que uma startup decole pelo risco inerente daquela tecnologia e modelo de negócio?

Achar que a culpa do nosso modelo falido é exclusivamente do governo é no mínimo patético e até mesmo ignorante. Acho que podemos aqui tirar essa ideia de bode expiatório e aceitar o fato de que todos os políticos são igualmente interessados em se manter no poder, sugar do dinheiro público e facilitar a vida de aliados. E daí entram novamente as grandes corporações, investidores que construíram fortunas no ambiente hostil do empreendedorismo brasileiro, associações de classe, onde muitos falam em liberdade pro mercado se regular sozinho, mas que não abrem mão de forma alguma do que possuem e querem muito mais. Novamente eu digo, que atire a primeira pedra quem nunca tentou ganhar espaço e monopolizar o seu ambiente!

Reflitam agora, a quem interessa o crescimento do ecossistema de startups, inovação e empreendedorismo no Brasil? E a quem não interessa? E talvez cheguemos à triste conclusão de que ambos são os mesmos protagonistas, porém agindo de uma forma e discursando de outra, bem a estilo demagogo político brasileiro. E pensem nas pessoas que lutam pelo ecossistema, será que elas olham isso ou apenas olham para o lado bacana?

Teoria da conspiração ou fatos? Não faz diferença, o foco é no seu negócio, no seu resultado e no seu crescimento, mas veja onde pisa antes de se envolver com o mercado.

Brasil, meu Brasil brasileiro!

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Leonardo Tostes

Leonardo Tostes

Hotmilk Accelerator's Manager

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