Entrevista: Caio Bonatto – CEO @ Tecverde
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Entrevista: Caio Bonatto – CEO @ Tecverde

Considerada uma das mais inovadoras e promissoras empresas do Brasil no setor da construção civil, a paranaense Tecverde vem construindo uma história baseada na sustentabilidade e na inovação. Hoje ela representa esses temas no setor, e por esse motivo já ganhou prêmios nacionais e internacionais.

Na direção da empresa está o engenheiro Caio Bonatto, que junto com seus quatro sócios, foi um dos pioneiros ao trazer para o Brasil o sistema construtivo em "wood frame", adaptando-o às necessidades locais desde 2008, quando a empresa foi fundada. Para que você conheça um pouco mais dessa história, e se inspire também com a trajetória do Caio, nós estivemos com ele no fim do ano e fizemos uma entrevista exclusiva. Boa leitura!

Entrevista: Caio Bonatto

Por que você resolveu empreender? Qual a sua motivação?

Eu cresci num canteiro de obras. Entrei no curso de engenharia civil na UFPR, e enquanto eu cursava cheguei à conclusão que eu tinha duas escolhas. Ou continuar fazendo a mesma coisa que se fazia há mais de 100 anos, com os mesmos processos, os mesmos vícios - talvez melhorando um pouco - mas o cenário era caótico na construção: problemas com prazo, mão de obra, resíduos, processos. Ou eu poderia fazer diferente.

Essa é uma decisão extremamente complicada porque a construção civil é um dos setores mais conservadores que existem, não só no Brasil. Então assumir esse desafio era uma decisão bastante complexa. Mas a gente assumiu esse desafio e a nossa missão então foi tornar o setor da construção civil mais industrializado e sustentável. Foi assim que nasceu a ideia da Tecverde. A gente não sabia como exatamente íamos alcançar esse objetivo, mas tínhamos uma certeza: continuar fazendo a mesma coisa não era o que gostaríamos de fazer. A gente sabia o que não queria, e tínhamos certeza que era preciso industrializar o nosso setor para torná-lo mais sustentável. E nós não vimos isso como um problema, mas sim como uma baita oportunidade de negócio e de carreira. Foi aí que começamos todas as pesquisas que levaram a gente a construir a Tecverde como ela é hoje.

Você tem algum empreendedor em quem você se inspira?

Eu tenho duas pessoas e cada uma delas me inspira de uma forma diferente. Meu pai sempre foi uma inspiração, como empreendedor e como pessoa. O jeito com que ele conduz as relações com muita transparência, honestidade, muito foco no resultado, com disciplina, é algo muito forte pra mim. O meu vô da mesma forma. Eu não conheci um cara mais disciplinado que ele. Até hoje ele tem uma disciplina invejável. Com 80 anos ele faz seus exercícios, trabalha, faz tudo o que precisa fazer todos os dias.

Essa questão da disciplina eu sempre reforço porque isso é muito importante. O empreendedor brasileiro tem a vantagem de ser muito criativo, mas ao mesmo tempo ele é pouco disciplinado na execução. Isso é ruim porque ser disciplinado te ajuda muito a ter a resiliência necessária para conseguir alcançar grandes objetivos. Você começa um novo empreendimento achando que você vai chegar lá com criatividade e disposição e que tudo vai ser um mar de rosas. Mas se você não tiver muita disciplina e resiliência nesse processo você nunca vai chegar lá. Com certeza você vai encontrar uma ideia mais legal e mais prazerosa no meio do caminho que vai parecer mais fácil. Conheço diversos empreendedores que tinham projetos fantásticos, com alto impacto mas não tinham a disciplina necessária.

E relacionado à inovação?

Em termos de inovação, é um clichê, mas o Steve Jobs vale pra mim. A Apple e o Steve Jobs como pessoa sempre inspiraram muito o nosso jeito de buscar a inovação e criar experiências aqui dentro. A Tecverde é uma empresa que busca levar inovação para o mercado através de experiências de consumo diferentes, mais bacanas. Usando a inovação para incrementar experiências. Como a Apple faz.

Você estava falando sobre como vocês identificaram uma oportunidade e como isso pode ser um problema ou não. Falando sobre isso, qual foi o principal desafio que vocês enfrentaram neste caminho desde a fundação da empresa?

Quem dera a gente tivesse tido um desafio só.

Mas, se você pudesse resumir?

Acho que o contexto é o maior desafio. E quando falo contexto, quero dizer o ambiente brasileiro de burocracia e de mercado, para citar dois exemplos. A nossa tecnologia era proibida de ser financiada no Brasil, não havia financiamento para esse tipo de casa. Nós lançamos a Tecverde com foco em casas de médio/alto padrão, e a pessoa não tinha financiamento para comprar esse imóvel. Imagine isso no maior boom do mercado imobiliário, em 2008/2009. Era muito difícil vender uma casa. Vendíamos uma, e ficávamos 2 meses com a fábrica parada. A gente quase fechou as portas. Com muita criatividade e poucos recursos fizemos muito. Tropicalizamos a tecnologia, fizemos parcerias com o Ministério da Economia da Alemanha, 34 empresas brasileiras, implantamos uma indústria sem dinheiro no bolso - coisa que ninguém imaginava ser possível. Desenvolvemos produtos e na hora de vender a casa não tinha financiamento. Isso é uma coisa, até certo ponto ridículo e agoniante. Nossos parceiros internacionais não acreditavam que no Brasil um banco não podia financiar uma casa inovadora pois não acreditava nesse imóvel como uma garantia. E com o tempo a gente conseguiu vencer esse desafio - que acredito tenha sido um dos maiores.

Tem até uma história de como fizemos isso com uma parceria com o Banco Santander. Por mais de um ano a gente bateu na porta de todos os bancos. Ninguém queria parar o trabalho no boom imobiliário para desenvolver um novo produto. Aí, num evento da FIEP, sentou um senhor do meu lado, começamos a conversar contei o que a gente fazia e etc. Perguntei quem ele era, e ele falou: "Sou o vice-presidente de novos negócios sustentáveis do Banco Santander". E eu "grudei no pescoço" do cara com tanta força que ele não teve escolha: marcou uma reunião para nós na torre do Santander em São Paulo, com todos os vice-presidentes do banco e etc.  Naquela época a sustentabilidade estava muito forte na pauta do banco. E sem saber direito o que apresentar para o banco - afinal de contas qual era seria o interesse deles em uma startup com pouco impacto financeiro ainda - fomos lá com muita convicção no nosso sonho. Tínhamos que mostrar para o banco que a gente podia ser uma grande mudança. A gente já tinha mostrado que com pouco recurso era capaz de fazer grandes mudanças em um setor muito conservador. Com brilho nos olhos a gente mostrou que podia ser a inovação no setor. E depois de seis meses o banco conseguiu mudar a lei e passamos a financiar as casas.

E as conquistas? Quais você poderia destacar?

Todas as primeiras: primeira casa, primeira fábrica, primeiro empreendimento Minha Casa Minha Vida. São conquistas que emocionam mas mesmo assim nós sempre estamos pensando nos próximos passos. Além das conquistas que vêm para massagear nosso ego, mostrar que estamos no caminho certo. Uma delas foi pessoalmente muito marcante que foi um prêmio de inovação internacional que ganhamos na França onde competimos na mesma categoria com Boeing e Michelin. Outras conquistas menores também podemos destacar, como a primeira pessoa de baixa renda que morou em uma casa nossa. Uma senhora, a casa dela estava caindo aos pedaços, a gente foi lá, em um dia construiu e no dia seguinte ela se mudou feliz da vida. Aí que vimos como a inovação pode impactar a vida das pessoas, e que se trabalharmos com criatividade a gente pode ser bastante assertivo no setor.

Pra todo mundo entender então, com relação ao convencional na construção civil, qual o diferencial da Tecverde?

Nós temos dois públicos que recebem duas experiências distintas: o consumidor final e o construtor em escala. A experiência que a gente oferece é uma obra com preço garantido, quatro vezes mais rápido que o convencional e sendo muito mais sustentável - geramos 80% menos carbono, 85% menos resíduo e o dobro de eficiência térmica e acústica. A tecnologia é apenas uma ferramenta. Essas vantagens surgem diretamente dela pois 60% da obra é realizada em uma fábrica, e não no canteiro. E o nosso trabalho é industrializar cada vez mais, tanto na fábrica, quanto na obra. Nesse ponto o setor da construção civil é extremamente carente, mesmo nas grandes construtoras isso ainda é incipiente.

A sustentabilidade é um assunto sempre em pauta. Como você enxerga a relação entre este tema e o empreendedorismo?

Acho que este é um campo fantástico para quem quer empreender. O Brasil tem tudo para ser o país da inovação focada em sustentabilidade. Hoje a gente tem uma rede de relacionamento muito grande com empresas de diversos países, e eles sempre perguntam: por que vocês não estão inovando mais? Se a China é o país do baixo custo, o Brasil pode ser sim o país da inovação em sustentabilidade em todos os setores. Tudo o que eles fazem da forma mais barata, nós poderíamos fazer com um custo competitivo mas com muito mais sustentabilidade. A gente poderia fortalecer muito nossa indústria com esse foco. Na construção civil, indústria têxtil, as energias alternativas, a indústria eólica que tem a principal empresa para hélices de turbinas em Sorocaba. Isso é pouco falado e pouco incentivado. Cada lugar no mundo cria sua identidade empreendedora, e o Brasil tem tudo para ter essa identidade sustentável no nosso ponto de vista.

A gente aposta nisso, tanto que hoje temos duas empresas aqui dentro: a Tecverde e a Rede Tecverde. A Tecverde entrega casas, um produto mesmo, um hardware, e a Rede Tecverde é uma empresa de inovação que entrega pesquisas, patentes, serviços voltados para inovação na construção civil, através de uma rede com laboratórios e instituições parceiras.

Pensando nessas duas frentes, qual o plano da Tecverde para o futuro?

Nosso plano é de tornar a Tecverde a principal fornecedora de casas no Brasil, e a Rede Tecverde a principal fornecedora de tecnologias para construção civil.

Você comentou antes sobre as pessoas de baixa renda que tem a oportunidade de morar em uma casa da Tecverde. Como você enxerga a responsabilidade da empresa para ajudar a resolver esse problema da habitação no Brasil?

A gente ajuda a resolver esse problema participando da solução, que é bastante complexa. Tem que achar o espaço, aprovar o empreendimento, selecionar as famílias, viabilizar recursos financeiros: todo um trâmite burocrático. Parte disso é tecnologia, porque o mercado precisa de tecnologia para ajudar a sanar o déficit habitacional com qualidade, e é impossível atender a demanda do nosso mercado empilhando tijolo. Ou seja, precisamos de inovações. Uma das inovações que são extremamente qualificadas para sanar esse problema é a que a Tecverde propõe. Mas sempre lembrando: não é uma bala de prata. Existe espaço para muitas outras tecnologias, afinal de contas nenhuma delas é correta, perfeita para atender a demanda. O mercado tem que estar aberto para receber cada tecnologia sabendo onde cada uma se encaixa. Só com tecnologia será possível construir moradias suficientes para suprir o déficit habitacional.

Além disso, a resolução desse problema é um processo perene e é fundamental também lembrar de quem trabalha na construção, quem está envolvido diretamente com os processos. Hoje um filho de pedreiro dificilmente quer seguir a carreira do pai. O sindicato da categoria tem um problema muito sério em conseguir trazer mão de obra para o setor. Antigamente a construção era quase um ofício passado de pai para filho, praticamente artesanal. Isso não existe mais em nenhum lugar do mundo. A gente precisa pensar em processos de industrialização e pensar o setor como indústria mesmo. Isso é uma oportunidade muito grande para todo tipo de inovação.

E como você enxerga esse cenário das startups, com novos empreendedores surgindo o tempo todo, eventos, esse ambiente efervescente?

Acho que hoje ninguém mais fala que tem uma empresa, todo mundo tem uma startup. Acho que é um movimento muito interessante, mas ao mesmo tempo temos que tomar bastante cuidado para que ele não seja uma onda. Não podemos construir uma imagem que a startup é o fim. E ela não é o fim. Eu vejo muito por aí gente com a sensação que a startup é o objetivo final. Eu acho que não. O objetivo final é chegar lá, montar uma baita empresa, fazer o negócio rodar, é viver o stress e a pauleira do dia a dia. Isso é empreender de verdade. Um business plan, uma boa ideia e uma conversa com um fundo não é um negócio para mim, é só o começo. E entre a startup incipiente e um negócio que chegou lá com cinco anos, há uma diferença radical de comportamento e postura que é exigido do empreendedor. Poucos conseguem sair dessa efervescência e passar por esse ciclo de realização. Tem muito sonho e muita poesia, mas poucas pessoas realmente interessadas e comprometidas em passar por esse ciclo. Sonhar é fácil mas ter capacidade de realização é uma outra história.

O que você deixaria como conselho para esses novos empreendedores então?

O conselho que eu deixaria é "saiba dizer não". É muito fácil a gente dizer sim para várias ideias, para vários convites para participar disso e daquilo, e quando você vê consumiu seu tempo com um monte de coisa e não fez nada direito. Saber dizer não é uma virtude. Até hoje não aprendi direito isso. É o primeiro passo. Disse não para um monte de coisa mais ou menos, e sim para uma excelente? Agora é a hora de realizar e ter uma disciplina tremenda e um comprometimento muito grande com a realização. Parar de fantasiar e fazer poesia, botar a mão na massa com a faca entre os dentes e partir pra luta. Porque empreender é uma luta, não um mar de rosas.

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Marcus Pereira

Marcus Pereira

Community Manager - Capivalley

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