Patreon: use com moderação
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Patreon: use com moderação

Meu amigo Anderson Costa, fundador dos blogs Movebla e Ekonomio e participante paulistano da mesa do Startapo, está sempre ligado a novas tendências especialmente no que diz respeito à economia criativa. Na última semana ele escreveu um texto muito bacana no Linkedin sobre o Patreon, uma plataforma de crowdfunding que diferente das tradicionais trabalha com pagamentos recorrentes. Como acho muito interessante essa discussão, especialmente porque o Patreon tem um apelo forte para produtores de conteúdo, achei que compartilhar esse texto dele aqui seria uma forma excelente de trazer a discussão para nosso âmbito capivara. Boa leitura!

O Patreon tem sido uma ótima alternativa para criadores de conteúdo. Ele cria uma nova via para financiar ideias e tirá-las da gaveta, além de manter projetos no ar por mais tempo. É uma das grandes mudanças que a economia colaborativa trouxe. Diferente de ferramentas como o Kickstarter e o Indiegogo, o Patreon é uma ferramenta de crowdfunding (financiamento colaborativo) recorrente, com base em produção de conteúdo. Você pode receber por criação, ou por um período. Faça um post, ganhe o valor. Faça um mês de posts, ganhe o valor. Essa é a premissa.

Ele não está lá pra gerenciar uma receita que virá do nada. As pessoas vão aderir ao seu Patreon porque querem duas coisas:

1 — ajudar

2 — ganhar algo com isso

Portanto, note que tem uma diferença bem grande entre dar dinheiro e financiar.Quem financia espera algo como garantia em troca. Como em qualquer relação financeira. Não é um ato de benevolência. Seu apoiador pode até ver a coisa assim, mas você nunca deve tratar dessa maneira.

Por isso mesmo campanhas de crowdfunding trabalham com entregas. Essa é a palavra mais importante desse raciocínio todo. Um projeto de crowdfunding bem montado deve passar por um amplo planejamento antes de ser publicado. Afinal, um financiador espera garantias de que seu dinheiro seja bem aplicado, e quer ver o resultado desta aplicação. E quer receber recompensa por isso. Ou seja, seu projeto de conteúdo não é mais só de conteúdo: é um gerenciamento de patrões.

Patreon: crowdfunding recorrente

O crowdfunding recorrente não deve ser encarado como monetização pura e simples. Não é uma relação comercial. É uma relação financeira com a sua audiência. Não é um anunciante, é o seu leitor/ouvinte/telespectador. Você está abrindo as metas que precisa para que seu projeto funcione e conta com seu público para que isso aconteça. Ou abrindo o seu projeto para que pessoas o custeiem sem pestanejar, sem metas, rumo ao sucesso.

Vou dar um exemplo de como trabalhamos no Café com Velocidade, podcast dos meus amigos que eu edito e ajudo a controlar o Patreon. O podcast fala sobre automobilismo, em edições semanais de até 3 horas de duração. Depois de mais de 300 edições, vimos que tínhamos custos que antes eram absorvidos por outras estruturas. E que agora precisavam ser pagos. Então botamos na ponta do lápis cada gasto necessário para o podcast ser publicado. É um projeto para um público bem específico - um podcast de mais de 3 horas sobre categorias de automobilismo que não são a Fórmula 1.

Hoje temos 3 metas alcançadas, rumo a quarta e última meta, de 100 dólares mensais, apoiados por mais de 20 patreons. Este custo hoje é o bastante para nós, porque o podcast não é a principal atividade dos apresentadores. O dinheiro atende perfeitamente à metas que estabelecemos, e ainda sobra um fundo para gastos extras, como envio de brindes de sorteios a ouvintes. Podemos ir mais além? Sem dúvida. Mas no momento o número é bem crível com a nossa realidade, um podcast de nicho criado por amigos que gostam de falar de automobilismo.

Estabeleça metas críveis com o seu trabalho

Mas como estabelecer estas metas? É aqui que boa parte dos criadores de conteúdo se confunde.

Comece a listar tudo (eu disse TUDO) que seu trabalho precisa para acontecer. É a partir daí que você começa a levantar os custos reais. Por exemplo, um blogueiro precisa de uma conexão de internet para se conectar e usar seu gerenciador de conteúdo. Então pode colocar neste custo uma mensalidade de um plano móvel de 3G ou de banda larga. Essa já seria uma primeira meta de, sei lá, uns 60 reais (apenas exemplo).

Ele precisa também pagar o servidor onde está o blog, então pode colocar o custo da mensalidade desse servidor. Num blog razoavelmente visitado, com cerca de 20 mil visitas/mês, ele pode escolher um servidor de até uns 30 Reais mensais. E aqui está a segunda meta.

Assim começamos a estabelecer pequenas metas com o levantamento desses valores. Já temos 2 metas iniciais e que ficam bem abaixo de patamares grandes. Notem que elas são pequenas porque devem dar a visão do que é necessário para que seu trabalho se erga. Não é só o seu esforço — tem toda uma estrutura envolvida. E quando começamos com valores menores e mais críveis, a sensação de que podemos ajudar com pouco aumenta. Com 15 apoiadores doando 2 dólares, você paga o servidor. Ou com um pagando os 15. Mas eu, como apoiador, sinto que fico mais perto de ajudar a bater uma meta.

Trabalhar com os custos reais do seu esforço é muito mais transparente com uma campanha de financiamento colaborativo. Quem vai apoiar do outro lado pode até fazer de bom grado sem perguntar, mas você como produtor de conteúdo deve prestar contas. É o dinheiro da sua audiência, e nem todo mundo será tão benevolente a ponto de não perguntar o que está acontecendo — faltar com essa transparência pode gerar desistência de assinantes tempos depois.

Dá pra trabalhar sem metas? Dá, mas complica

Existem projetos de Patreons sem metas que são bem sucedidos. É um cenário possível. Destaco por exemplo a artista internacional Amanda Palmer. Ela não tem metas. Seu projeto já está em mais de 30 mil dólares mensais. E isso é graças a seu renome já construído antes, com uma audiência que transcende seu engajamento online.

Não ter metas no seu Patreon é algo que vai depender extremamente do seu poder de engajamento. Se não há metas, não há outro objetivo que não seja o seu sucesso. Então isso tem que ser levado em conta. Há um objetivo, e ele é o item máximo a ser alcançado.

Mas cuidado: Patreon não é salário. É um financiamento do seu trabalho. Todo financiamento tem suas trocas e garantias. Pensar em forma de salário pode criar uma sensação cômoda e dependente. Este financiamento colaborativo deve ser um dinamizador do que você pretende com seu projeto. E não um alicerce monetário. Pense com muito carinho nas recompensas a serem dadas, e se estão ao seu alcance. Cumpra-as religiosamente.

Não é só construir e esperar — é construir e construir e construir…

Um pensamento muito comum para quem monta seus projetos no Patreon é “quem quiser que pague, quem não quiser, não pague”. Nem toda a sua audiência vai achar a necessidade de te financiar. É normal. Nem todos os leitores de jornal pagam assinatura. E nem todos o compram - alguns costumam ler apenas as manchetes em portais ou nas laterais das bancas. A noção de valor da produção de conteúdo bagunçou fortemente na última década, e é culpa de uma série de fatores, mas especialmente de uma cultura que formamos. Se o seu trabalho só vai dar certo sendo custeado, mas ninguém mais quer pagar por conteúdo, como esta conta fecha?

Então o pensamento de "construa, e eles virão" não é uma inverdade, mas é muito simplista. Seu projeto precisa acontecer. É parte do seu sonho. E vale a pena se empenhar por isso. Você montou este projeto porque precisa dele. Então é seu trabalho convencer inclusive quem não quer pagar por isso. Pode não dar certo, mas não será por falta de tentativa.

Isso passa por uma adequação contextual da sua página no Patreon. Explique bem para a audiência qual o objetivo do seu projeto. Faça imagens e vídeos bacanas que demonstrem na essência o que você pretende fazer com o rico dinheirinho dos Patreons. Intercale o texto com partes onde você explica o que é o projeto e quais os passos necessários para realizá-lo. Coloque-se à disposição para qualquer esclarecimento.

E divulgue, divulgue e divulgue. Seja mais vendedor de si mesmo. Trabalhe devagarinho, mas constantemente. Converse com amigos, família, grupos de interesse. Se tem uma base de mailing, use-a. Faça divulgações cruzadas, participando de outras produções de conteúdo de amigos e divulgando seu projeto. Não fique parado esperando os Patreons aparecerem. Eles precisam ser estimulados e buscados o tempo inteiro.

Ouça e fale com os Patreons

Uma das coisas mais legais de usar o Patreon é a criação dessa comunidade de pessoas realmente interessadas na sua ideia. Não há grupo mais engajado. Essas pessoas se dispuseram a pagar para que seu projeto aconteça. Então trate-as com o devido respeito e carinho. Seus Patreons não são apenas avatares. São pessoas que acreditaram na sua ideia. Seus primeiros financiadores.

Converse com sua comunidade sempre que puder, e não apenas quando fizer um post/vídeo/podcast novo. Estabeleça uma rotina de produção de conteúdos exclusivos. Ou mesmo abrir um tópico do nada para puxar assunto. Mande fotos, vídeos de bastidores. Compartilhe sua rotina. Coloque seu trabalho à disposição dos Patreons para possíveis críticas.

E abra uma outra rotina: a de ouvir. Peça feedbacks. Peça sugestões, dicas de pauta, dicas do que fazer. Quem pagou quer ver seu dinheiro bem investido.

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Anderson Costa

Anderson Costa

Jornalista, coworker, entusiasta digital e gente boa.

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