Rodrigo de Alvarenga 2017/06/30 19:25:49 +0000 | 7 minutos de leitura
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Por uma comunidade de empreendedores e não um projeto político!

Em geral, sei que muitas vezes sou taxado de chato e detalhista, ou ainda, até de mala, crítico e inflexível. Preciso começar admitindo que isso tudo em parte é verdade, sou muito exigente comigo mesmo e acabo por ser também com o meu entorno. No entanto gostaria de oferecer aos interessados a chance de entender isso tudo um pouco melhor.

Apesar de trabalhar muito duro, no fundo sou um idealista e tenho um forte viés de empreendedor social, sou movido por causas e não por nenhum outro drive. Além disso, sou apaixonado por educação e tenho convicção de que precisamos mudar muita coisa no modelo mental do brasileiro (eu, você e todos que nos cercam!).

Exatamente por isso, acordo todos os dias com forte desejo de contribuir para a mudança em nosso país. É preciso ser o país do presente e não mais o eterno país do futuro. No meu modo de ver o mundo, eu enxergo isso de uma forma simples: o que posso fazer hoje a partir das 8hs da manhã que coloque um tijolo na direção de construir esse país do PRESENTE que tanto quero ver?

Procuro trabalhar na execução e entrega das tarefas e desafios para obter esse resultado. Assim como eu existem muitos brasileiros que fazem o mesmo, talvez exatamente por isso esse país ainda não afundou de vez!

Vários anos atrás, dispostos a construir um presente melhor, um grupo de pessoas idealistas iniciou uma jornada. Nem todos se conheciam e tão pouco estavam fazendo isso juntos, esse encontro aconteceu com o tempo. Alguns anos e muitos eventos, projetos, networking, negócios, programas e construção de comunidade depois, foi possível inserir Curitiba no cenário de empreendedorismo e inovação nacional. Essa comunidade ficou conhecida como Capivalley.

Não éramos perfeitos, não tínhamos resolvido todos os problemas, não tínhamos nem mesmo resolvido o relacionamento entre os atores, mas claramente podíamos ver uma curva de amadurecimento e evolução. Começamos a enxergar muito melhor aonde poderíamos ir juntos - que Tesão!

Tínhamos um número de co-workings e ambientes que favoreciam as conexões criativas e a inovação, pessoas de Curitiba e de fora que contribuíam com suas experiências nacionais e internacionais, alguns players que apoiaram desde o começo e outros que foram se incorporando pelo caminho. Chegamos a ter uma experiência social sem precedentes voltada a empreendedores de startups - A Fantástica Casa das Startups.

Enfim muitas coisas aconteceram, algumas startups que nasceram aqui ganharam o Brasil e até o mundo - Ebanx, Olist, Pipefy, SitePx, JáEntendi, Contabilizei, Rentcars, Fleety, Sywork, NZN, Navegg, Beenoculus, entre outros (por favor não se chateiem caso tenha esquecido de alguém, é a idade).

Não posso falar em nome de ninguém que não no meu mesmo, mas quero crer que tínhamos orgulho de ver tudo aquilo acontecendo. Quem não acompanhou talvez não saiba quanto sangue, suor e lágrimas rolaram ao longo do caminho, mas tínhamos muito orgulho dos resultados que vinham sendo construídos.

Tudo isso aconteceu com muito esforço, tempo, recursos de pessoas físicas e empresas comprometidos com a causa do empreendedorismo como ferramenta de educação; empoderamento e desenvolvimento sócio-econômico; e nenhum ou muito pouco apoio do poder público. Na verdade não foram poucos os casos em que o poder público até atrapalhou (assunto para outra conversa).

Dentro desse contexto, estávamos vendo o surgimento de uma comunidade local que com o tempo mobilizou mais pessoas, empresas, recursos e enfim até algum apoio do poder público, ganhando relevância e conseguindo até uma sala no Cubo (em SP) com o nome de nossa comunidade - Capivalley.

Ok Rodrigo, o que tudo isso tem a ver com o título? Tem tudo a ver!!

Em nenhum lugar do mundo em que estive, em nenhuma comunidade de empreendedores e inovadores que visitei o poder público é o ator principal da história. Sua atuação tem um viés de apoiador e/ou indutor desse processo, mas nunca de assumir o papel principal, nem tão pouco de associar sua atuação a um projeto político. Criar condições, gerar e manter o desenvolvimento econômico-social é uma das obrigações do poder público e não o contrário.

Por isso tudo, depois de tanto sangue, suor, lágrimas, histórias de sucesso e de fracasso que trouxeram um árduo aprendizado, quando vejo que tudo é deixado de lado para acomodar um projeto político, fico muito preocupado!

Sim, precisamos ter o poder público apoiando e contribuindo no que lhe compete, como por exemplo a infra-estrutura, atração de investimentos, marco legal que abrace a inovação (não como vimos o que aconteceu com o Uber quando do seu desembarque aqui em Curitiba), planejamento de desenvolvimento da cidade e região para oferecer condições para a inovação florescer, entre vários outros pontos.

Contudo, NÃO devemos associar isso ao poder público, NÃO devemos tirar o protagonismo dos atores que são indispensáveis a execução dessa mudança, NÃO podemos voltar a ter aquele ambiente que depende do apoio, decisão, plataformas, comunicação, realização, etc, do poder público.

Uma identidade comum precisa falar tão alto que não conseguimos ouvir o que os outros estão dizendo! Ela precisa ter força em si mesma, fundamentar-se nos valores que suportaram sua criação e na visão de onde queremos chegar. Portanto, esta identidade precisa sobreviver a qualquer governo específico pois ela tem de ser a expressão da sociedade que queremos.

Todo esse texto serve para convidá-los a refletir sobre qual a identidade que queremos ter como comunidade. Não tenho a intenção de criticar nada nem ninguém, mas sim provocar uma reflexão a respeito, antes que sejamos surpreendidos com um projeto com prazo de validade que comprometa tudo aquilo que foi construindo a tanto tempo.

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